Qual Futuro?

Uma exploração plural sobre os condicionamentos de um futuro próximo e as construções, pessoais e colectivas, que surgirão por processos de criação de sentidos políticos, geográficos e pessoais, a partir da reflexão e compreensão do passado e do presente.

À pergunta Qual Futuro?, submete-se sempre uma outra diametralmente oposta, porém de igual valor exploratório: Qual Passado? E a resposta nas duas situações depende de várias concepções, quase nunca concordantes, sendo que em ambas o seu entendimento interdepende da percepção sobre o próprio presente.

Uma possibilidade de resposta ao estabelecer-se futuros é pelo esvaziamento de todos os estados de memória e percepção temporal. Esse esvaziamento pode ser obtido pela tomada de consciência (ou seja, a operacionalização da memória para uma compreensão circunspecta do passado) ou pela anulação dessa consciência (a negação completa dessa operacionalização). Enquanto um permite construir e acautelar-se de referencias do passado para preencher o futuro, o outro anula-as na tentativa de estabelecer um cenário aparentemente novo.

Com o fim da Guerra Civil, em 2002, a politica e as diferentes estruturas sociais, económicas e religiosas angolanas partiram numa tentativa de dissociação do passado com as dinâmicas do presente, que se verificou na anulação do diálogo e do repensar sobre as configurações coloniais e dos conflitos de décadas posteriores. As referências do pós-colonial e do pós-guerra acabavam num trato da conveniência, em que estava implícito uma espécie de reformulação de linguagens[1].

Essa reformulação ou criação novas de linguagens nas texturas sociais - serviu de interesse na produção artística das gerações que os viveu. São gerações que se debateram com o cenário colonial e pós-independência, a mesma geração que enfrentou posteriormente a guerra civil e os condicionamentos do pós-guerra. As suas batalhas foram contra as noções de um presente onde se propagava o silenciamento dos efeitos destas duas heranças.

Os artistas em Qual Futuro? pertencem a uma geração que viveu o cenário residual da guerra e que carrega em si os traumas da memória e as considerações pós-memoria dela. É uma geração que pelo seu trabalho busca o compromisso de se voltar a ela para entender o seu próprio lugar naquela história e das pessoas que lhe antecedeu. Esta busca pode ser entendida pelo estabelecimento de horizontes futuros, pela reformulação das linguagens e percepção colectiva, assim como pela categorização do espaço público como espaço político e pessoal.

No sentido dos horizontes, para ensaiar o futuro que tanto ansiamos, parte-se em balancear os legados do passado observando a sua continuidade na construção de um futuro. Junta-se neste ponto o trabalho de instalação de Adriano Cangombe, que olha sobre a questão da fragmentação da memória colectiva, ou ainda de Helena Uambembe que, fazendo recurso ao cepticismo, espelhado em vídeo, busca reposicionar as ideias de verdades do passado, presente e futuro. Uma negação à aceitação literal do que se oferece. Nefwani Júnior, por outro lado, avalia se estes legados nos permitem viver em coexistência com os novos tempos, com todas as suas incertezas e constantes busca da suposta evolução.

Enquanto herdeiros de um passado a descoberto, os desafios geracionais são sempre da percepção do individuo enquanto sujeito da História. Para a filosofa francesa Simone Weil, a revolução de um homem nem é sempre igual à de seu vivinho[2], por isso a percepção do sujeito na História, capaz de oferecer alterações num futuro próximo, poderá ganhar outras dimensões mais pessoais em relação a um objecto colectivo. Como se vê em trabalhos de Teresa Firmino, onde investiga os traumas, pessoais e das comunidades, vividos devido à colonização e guerras civis. E sobrepõe ainda os obstáculos actuais enquanto mulher, o que se alinha com o trabalho de Eliane Lima, onde as idiossincrasias do feminino se misturam com a Natureza, explorando uma posição frontal e uma afirmação mística delas. Já Pemba pensa as formas de organização humanas e as contrapõe com a organização dessa mesma Natureza. E Gegé M´bakudi olha para poética dos corpos negros para pensar uma revolução futura.

Por fim, a categorização do espaço público é a determinação do espaço de confrontação da memória, do pessoal e do político. Neste encontro é onde se exploram as evoluções e experimentações da realidade quer futuras como presentes. A eficiência das economias, a expansão do poder dos governos, especialmente os regimes autoritários, a redistribuição social e geográficas, as questões dos acessos em função das classes, são todas testadas aqui. Em Yola Balanga observa-se um poder público retirado do povo, sem esperança de retorno, reafirmando a dificuldade politica de projectar-se ao plural.

No sentido do espaço público-cidade os trabalhos de Fernando Lucano e Uolofe dialogam. Enquanto no primeiro, a cidade é esbatida pelo consumo e subaproveitamento da sua produção, no segundo tece-se linhas que exploram a capacidade do indivíduo político de projectar o futuro.

Todas as narrativas propostas na exposição se sustentam de uma reflexão e compreensão do passado e do presente para reavaliar, sem os acessos fáceis dos slogans, tendências teóricas e do pensamento, como tudo cria condicionamentos imperceptíveis e duradouros.



[1] Expressões como assimilados ou baixa e musseque, entre tantos outros, são exemplos uma herança colonial que continuou para criar distinções em nova fase. As expressões Pame, derivação subjectiva das acções da PAM (Programa Alimentar Mundial) em Angola nos 1990, ou ainda o Xé, menino não fala politica, serviram para disfarçar a precariedade politica e a anulação do real sentido que as realidades exigiam.

[2] WEIL, Simone, Exame crítico das ideias de revolução e progresso, Cadernos de Leituras nº54, Edições Chão de Feira (Novembro de 2016) https://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2016/11/SI_cad54_SimoneWeil.pdf 



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